quinta-feira, 28 de julho de 2016

Medos Noturnos

Os minutos se arrastavam, lentamente. Meia-noite em ponto.
Dominado pela ansiedade, eu não conseguia desligar o cérebro e simplesmente pegar no sono. Meu pensamento agitava-se de medo e excitação, e podia-se ouvir o coração palpitar. Era impossível pregar o olho. O relógio do despertador marcava meia-noite e três minutos.
Deitado na escuridão do quarto, pensava no dia que estava por vir, no qual conheceria a nova escola. Novos colegas, professores, tudo diferente… eu era um garoto tímido, imaturo, e incapaz de enfrentar aquilo com naturalidade. O desconhecido me assustava.
Inspirei devagar, tentando ficar tranquilo. Era imprescindível que estivesse bem descansado. Mas o sono não chegava, e meu olhar se perdia nos detalhes talhados na madeira velha do roupeiro.
Examinei o despertador, novamente.
00:05.
De repente, o ar ficou frio. A noite tornou-se mais escura. A luz da lua que entrava pela janela pareceu enfraquecer. Um vento forte e barulhento sacudiu o pequeno quarto.
E então, silêncio.
Senti algo estranho, um sentimento ruim, que percorreu todo o meu ser, e tomou conta de minha consciência.
O que senti era uma presença. Algo de anormal estava acontecendo.
Um arrepio percorreu meu corpo…
Eu não estava sozinho.
Esqueci de tudo, de quem eu era, dos meus receios bobos da escola nova. O medo que invadia minha alma era agora mais profundo… eu tinha medo de morrer, e só queria que aquela noite acabasse.
“Mas que estupidez. Não há nada de errado, pare de ser criança.”
Mas esse pensamento não foi o suficiente. Meu ceticismo não era capaz de desfazer a sensação aterradora. Aquele medo era irracional, incontrolável. Dominou-me, por completo.
Escutei um rangido prolongado.
O despertador marcava 00:07. Foi a última coisa que vi, antes que a porta do roupeiro se abrisse devagar, e de seu interior emergisse um vulto, que vinha em minha direção.
Meu coração pareceu parar. Sem reação, paralisado de pavor, assisti àquela figura se aproximar de minha cama. A luz fraca da noite revelava uma velha horrenda, cuja face deformada ostentava um sorriso de dentes afiados como presas, e cuja pele cinzenta e disforme exalava um fedor pungente. A velha ergueu os dedos apodrecidos de unhas longas. Seus olhos vermelhos me fitavam, parecendo sondar minha alma. Ela chegou mais perto...
Aquela mão repulsiva e gelada tapou minha boca, abafando meus gritos, enquanto eu sentia as unhas afiadas da outra mão perfurando meu peito. Uma dor lancinante me subjugou.
Minha visão embaçou, tumultuada e caótica. E tudo se desfez.

De um sobressalto, pulei na cama, ofegante e aliviado. Havia sido apenas um pesadelo.
Respirei fundo, tentando me acalmar. Olhei para o despertador.
00:06.
Ouvi um rangido.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Revolta

Revolta

Há uma sombra distante que se move
Há um vento pulsante à nossa volta
Há um pranto. Porém, não me comove
Mas gera, no incauto, uma revolta.

Ora, se desde o sêmen vítreo
Da Gênese primária universal
Existe a mácula profana do delírio
E o laivo do pecado original

Como há de, ainda, um ser vivente
Surpreender-se com o pesar latente
Fiel comparsa desde o nascimento?!

A vida é revolta, é fúria desmedida
É impelir contra a injustiça recebida
Um brado fraco, que se desfaz no vento.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Contemplação

Contemplação
Escrito em 13 de maio de 2012.

A pequena garota sentia a grama fria e úmida de orvalho sob seus pés. A grande esfera solar surgia cintilante através das nuvens cinzentas, após uma breve garoa, no fim daquela tarde. Os raios solares alaranjados refletiam nas últimas partículas de chuva suspensas no ar, formando um arco-íris. O vasto campo verde estendia-se até perder-se no horizonte, em todas as direções. Só existia a relva, o céu e o arco-íris. E ela, a pequena garotinha de vestido molhado.
Que sensação fantástica de paz e liberdade! Não haviam problemas, preocupações ou medos. Apenas ela, sozinha naquele imenso vazio, para sentir as gotas de água fria caírem sobre sua pele, deitar-se na relva macia, contemplar o céu, o arco-íris, a beleza sublime do Universo.
Até onde iria aquele arco-íris? Haveria, no fim, um pote de ouro? Se não, o que haveria? Sentiu uma profunda curiosidade em relação à tudo o que a cercava, uma vontade irresistível de descobrir, tudo o quanto fosse possível, acerca da natureza das coisas.
Começou a caminhar em direção ao Arco-íris.
A ansiedade ia aumentando. Quando percebeu já estava correndo, o mais rápido que conseguia. Mas o arco-íris parecia continuar à mesma distância sempre. Por mais que ela corresse até cansar, ele nunca se aproximava.
Não se desesperou, pelo contrário: sorriu. Era um desafio.
Já sentia a adrenalina percorrer seu corpo, o coração pulsar mais forte. Correu e correu, o mais rápido que podia, sem parar, sem se cansar. Não parava de fitar arco-íris, pois a visão de seu objetivo lhe dava força e ânimo.
Por fim, o sol tocou o horizonte oeste, enquanto o lado oposto do mundo mergulhava na escuridão azulada da noite. A Estrela Vespertina surgiu no céu, a primeira da noite, e a mais brilhante.
O Arco-íris se desfez, assim como a palidez das nuvens. Foi  chuva de verão, rápida e passageira. Num piscar de olhos, a escuridão do firmamento preencheu-se de pontos cintilantes, suspensos no infinito.
A garota parou para respirar, exausta. Não havia mais arco-íris para perseguir. Deitou-se no chão, e olhou para o céu noturno. Infinitas estrelas piscavam para ela, deleitando sua alma em fascínio, diante da majestade incompreensível do Universo.
Mas por que? Por que era incompreensível? Era algo tão belo e perfeito que sua alma ansiava por compreender. No entanto, por mais que pulasse em direção às estrelas até amanhecer, nenhum salto seria o suficiente para levá-la até o espaço. Jamais tocaria a estrelas.
Foi nesse momento em que percebeu que jamais compreenderia o Universo. Diante da beleza e imensidão daquele céu infinito repleto de estrelas, sentiu-se pequena e frágil. Percebeu o quanto era efêmera e insignificante, e sentiu-se triste, desolada.
Contudo, o que existia ao redor dela ainda era muito belo, e sentiu-se grata por ter a benção de poder sentir e contemplar tudo aquilo.
Mas que bênção seria essa? Marina refletiu por um instante, até dar-se conta de que a benção era sua própria vida.
Talvez não fosse tão efêmera assim, pois fora-lhe dada o dom de viver, e de poder apreciar a existência. Por mais que nunca chegasse a compreender o Universo por completo, sempre poderia contemplá-lo. E isso tornava sua existência algo fascinante, e também inexplicável.
Voltou a observar as estrelas, ciente de que nunca chegaria até elas, mas mesmo assim sentiu-se próxima delas. Apenas de olhar já podia sentir que estava diante de algo fantástico e misterioso por natureza.
Contemplou o Universo, e percebeu que fazia parte dele.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Oásis no Deserto

À Thais

Eu, patético farrapo, esquelético,
Sou verme que rasteja num desértico
Mar de ásperas areias quentes, triste
Apenas solidão em mim existe!

A noite cai, escurece o mundo
Atormenta-me todo pensamento imundo…
E meu corpo, pelo frio devastado
Treme sob um trapo desgastado!

Quase ao morrer de solidão neste deserto
Encontrei um oásis, no teu peito aberto
Que jorra água pura, onde irei me refrescar…

Confortar-me nos teus dizeres sábios
Matar a sede no toque dos teus lábios
No oceano dos teus olhos me afogar!

domingo, 6 de abril de 2014

Pedras

Que bela pedra. Tamanho e formato perfeito. Tomou impulso, correu e chutou-a com toda a força. Assistiu a trajetória da pedra em direção ao muro, até espatifar-se, convertendo-se em fragmentos. Fantástica cena. Sublime.
Mas qual era o sentido daquilo? O que o motivava a chutar a pedra? Por que se divertia com isso? Havia algum objetivo?
Pensou nestas questões. E teve a ideia de aplicá-las à sua vida.
Sentiu que não conseguia respostas satisfatórias. Sua mente ficava vagando no vazio, em busca de uma solução, mas não encontrava nada.
Sentiu-se como aquela pedra, arremessada por uma força externa, sem uma razão aparente, que ele não conseguia compreender. Percebeu que se encontrava no início da trajetória, mas já sabia qual era seu iminente fim. Seria chocar-se contra o muro, destruir-se, e deixar de existir.
Difícil entender a razão da existência, durante tão pouco tempo. As pedras apenas vislumbram o ambiente ao redor, como vultos, enquanto dirigem-se ao fim, em alta velocidade. Será que pessoas são pedras? Ou será que podem olhar ao redor, e tentar compreender: quem chutou a pedra, e por que fez isso? O que fazer enquanto está atravessando o ar? Como aceitar o fim derradeiro, o muro da morte?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Delírios Proféticos - Capítulo 3

A Donzela Pálida

A esfera de fumaça que envolvia a cidade impedia que ele pudesse observar as estrelas. Apenas a lua crescente era visível no céu negro. Postes e faróis de carros eram pequenas ilhas de luz no mar de escuridão. Um vento frio soprava, sussurrando entre o silêncio noturno. Paulo andava em direção ao parque, cujas árvores eram visíveis ao longe, iluminadas pela luz fraca dos lampiões. A cada passo que dava, seu coração parecia bater mais acelerado. Ele pressentia que algo sublime estava prestes a acontecer.
O parque permanecia na penumbra e silêncio. As crianças já tinham ido embora, mas suas risadas pareciam ainda ecoar naquele ambiente. Entretanto, o parque não estava totalmente vazio. Apenas uma figura era visível no escuro, iluminada pela luz fraca e alaranjada do lampião. Era uma mulher. Permanecia sentada no banco, imóvel como uma escultura de mármore branco, semi-oculta pelas sombras. Mas quando se levantou, esguia e elegante, pareceu emitir de si uma luz muito intensa.
Ah! Aquela luz, que a princípio queimou-lhe os olhos, por fim clareou sua mente, de modo sutil, e ele conseguiu enxergar a verdade das coisas. Aquela criatura, frágil e bela, mas humana, tornava-se algo divino diante dele, em uma apoteose deslumbrante e indescritível. Seu semblante resplandecia de pura beleza e bondade. No fundo de seus olhos negros, que pareciam um túnel sem fim, brilhava uma estrela incandescente, emitindo luz e energia. Seu rosto era delicado e harmonioso, um retrato da perfeição verdadeira e absoluta, sublime.... Paulo poderia olhar para ela a noite inteira, durante horas ou dias, até mesmo durante toda a eternidade, e assim, ser a pessoa mais feliz do mundo. Uma emoção muito forte tomava conta do seu corpo, deixando-o lívido e extasiado.
Ela parecia exalar um suave perfume, jamais sentido em pétalas de flores deste mundo. A palidez de sua pele contrastava com os cabelos, negros como o firmamento, que esvoaçavam como se uma eterna brisa os envolvesse. Perfeita em suas formas e contornos, delicada, assombrosamente linda, amedrontadora...
Paulo teve vontade de rir, de gritar, e em seguida, quase deixou escapar uma lágrima. Não de tristeza, nem de felicidade, ele não sabia ao certo o motivo. Mas tinha a certeza de estar presenciando algo misterioso e complexo, de estar observando a resposta viva de suas mais profundas indagações. Ele vislumbrou a face de Deus, assistiu à saga do Universo, de sua criação até o fim derradeiro, em um simples lampejo de olhar...
Enquanto ele a perscrutava, imóvel e fascinado, a garota parecia fazer o mesmo.
– Oi – disse ela finalmente, rompendo o silêncio. Sua voz sussurrante era uma melodia sutil e maviosa. Ao ver que ele continuava fitando-a, sem esboçar reação, acrescentou – Me chamo Clarice.

(...)

Delírios Proféticos - Capítulo 2

A Oração

Um baque seco o acordou. Abriu os olhos vagarosamente e olhou para o chão. O controle remoto se partira. Ajeitou-se no sofá, esfregando os olhos, e encarou a televisão. O apresentador do programa anunciava, com um sorriso simpático e proditório, outro produto de qualidade duvidosa, e incentivava os espectadores a comprá-lo. “Farsantes imbecis”, resmungou ele, levantando-se e desligando a TV.
Raios de sol dispersos atravessavam a cortina no final daquela tarde. Uma monotonia desagradável e insípida permeava aquele ambiente, que de outro modo seria aprazível e acolhedor.
Sentou-se novamente, e enxugou o suor do rosto com as mãos. Sua cabeça latejava de dor. Sentiu-se completamente desanimado e entediado. Queria voltar a dormir apenas para perder a consciência, mas não tinha mais sono. Tonto e atordoado, respirou fundo. Tentou pensar em sua vida, no que acontecera recentemente e no que deveria fazer a seguir, em uma tentativa de organizar sua mente e se localizar no Universo. Não conseguiu.
Sentiu então, uma sensação estranha e desesperadora, um súbito tédio, profundo, na alma. Percebeu que não tinha mais um objetivo pelo qual lutar, nada, nem mesmo um sonho distante e esquecido, para motivá-lo a dar o passo seguinte. Nada do que existia em sua vida parecia fazer sentido. Trabalhava em um emprego enfadonho, realizando uma tarefa prescindível, e até mesmo as coisas que seu dinheiro comprava lhe pareciam agora inúteis, desnecessárias. Vivia de forma deplorável, sem amigos, sem família. Não amava ninguém, nem mesmo a si próprio. Não desejava nada, não sentia uma única sensação a não ser o tédio, como se sua alma estivesse eternamente anestesiada. Não queria mais viver; tampouco desejava morrer. Sentiu-se aprisionado pela própria realidade, e sôfrego por se libertar daquela prisão. Perdido entre pensamentos sufocantes, e sem saber como se aliviar, decidiu sair de casa, caminhar um pouco e relaxar. Ao passar pela soleira da porta, tampou os olhos com a mão, protegendo-os do sol, que chegava ao fim de seu percurso diário. Sua pupila contraía-se lentamente, enquanto uma brisa lânguida e repentina agitava seu cabelo, trazendo um cheiro repugnante de lixo e poluição. Caminhou lentamente pela rua, apreciando o silêncio. Não sabia ao certo para onde ia, mas sua alma estava ávida por movimento, e mesmo sem direção, caminhar era melhor do que ficar parado.
Paulo trabalhava em um escritório de contabilidade. Acordava cedo todos os dias, ia para o escritório, e permanecia naquele ambiente insípido de paredes brancas o resto do dia, para realizar um trabalho insuportavelmente entediante, em um em meio à pessoas falsas e fúteis, as quais ele aprendera a odiar em segredo. Nem mesmo seu razoável salário compensava aquela rotina miserável. Sentia-se inútil. Era inútil. Afastava-se das pessoas, evitando qualquer vínculo. Ora, entre participar de uma sociedade podre e corrompida, e ser antissocial, ele optara pela última opção. Não tinha amigos, que dirá uma namorada. Seu pai morrera antes que ele tivesse consciência disso, e sua mãe logo depois, quando ele tinha sete anos. Foi criado num orfanato, e logo teve que aprender a se virar no mundo; uma tarefa que ele não realizou com eficácia. A única recordação de sua família que ele já teve era um antigo álbum de fotos, que ele tratou de arremessar na lareira sem cerimônia. Viver do passado é tolice, viver de um passado do qual nem se lembra é  imbecilidade ou algo pior. Sua mente trabalhava à esse ritmo, mas seu coração era amargurado e solitário. Era sensível, ainda que não admitisse.
Ele caminhava, simplesmente isso. Observando as pessoas que ainda trafegavam, e os cães sem dono perambulando. As pessoas não pareciam muito diferentes deles. Ambos se preocupavam apenas com seus problemas pequenos e mundanos, sem nem ao menos tentar imaginar que à cima de suas cabeças existia um Universo infinito e inexplicável, de astros e estrelas, vazio e matéria, regidos por leis físicas, talvez até mesmo metafísicas, que eles nem poderiam sonhar. Focavam-se no que estava à frente, guiados pela força da natureza e por seus instintos animalescos de sobrevivência. Eram apenas seres vivos, pouco diferentes de uma ameba. Eram apenas... poeira no vento.
Quanto mais se aproximava do centro da cidade, mais intenso era o cheiro de esgoto mesclado a monóxido de carbono, e como de propósito, uma brisa importuna insistia em empurrar o fedor na direção do seu rosto. Se aquele passeio tinha como objetivo fazer esquecer os problemas, não estava dando certo.
O primeiro choque foi perceber que era domingo, e que portanto, o dia seguinte seria segunda-feira. Paulo logo começou a blasfemar, e em seguida, a relembrar as contas que teria que pagar e os afazeres que deveria concluir. Voltou à sua rotina infernal mais cedo do que pretendia.
Escureceu um pouco, e o ar ficou mais puro, a medida que se aproximava de um parque arborizado. Contudo, ele nem se deu conta disso, sua cabeça perdida em pensamentos e cálculos.
No parque, crianças corriam e gritavam, agitadas. Todas sujas de areia, não tinham preocupações, queriam apenas brincar. Tenho que pagar a conta de luz até amanhã. O sol alaranjado iluminava o parque, atravessando os galhos das árvores. Não posso pegar mais dinheiro emprestado. Borboletas coloridas esvoaçavam entre as cabeças, ou rodeando as flores primaveris. Ah, merda! Amanhã é segunda! Um casal namorava sobre a grama. Não aguento nem olhar para a cara do meu chefe.
Começou a se afastar do parque. Aos poucos, o ar puro foi se tornando poluído e pesado novamente. A fumaça dos carros em sua face faziam seus olhos lacrimejarem, enquanto ele caminhava entre montes de lixo espalhados na rua. Entre o lixo, haviam pessoas estiradas no chão. Um mendigo brincava, equilibrando latinhas para formar um castelo. Ele olhou para Paulo, e deu um sorriso que faltava alguns dentes. Paulo não pôde evitar de rir, mais por achar graça do que para retribuir o sorriso. Ele costumava sentir-se feliz ao ver os mendigos. Pensar positivo é saber que eu poderia estar pior. Quando criança, tinha piedade, até que um dia sua mãe o repreendeu por dar algumas moedinhas a um deles. A partir de então, via-os com indiferença. E agora, usava o sofrimento deles como meio de suavizar o próprio. Sentiu-se mal por pensar assim. E em seguida, sentiu-se bem por sentir-se mal. E continuou caminhando um pouco mais animado. Consciência é um instrumento fascinante. Depois se arrependeu por ter pensado isso.
Uma nuvem negra pairava no céu, vinda de uma chaminé distante. Acho melhor resolver meus problemas amanhã. Uma pequena capela reunia algumas pessoas no fim da rua. O sino da capela badalou, e som grave ressoou, como as batidas ritmadas de um coração. Naquele momento, o Sol vermelho se punha em um arrebol de cores vibrantes e vivas que contrastavam com o outro lado do céu, azulado e escuro, em um espetáculo fascinante e assustador ao som das badaladas taciturnas que ressoavam. As pessoas se aproximavam da capela devagar. Ele decidiu segui-los. Se rezar não ajudasse, ao menos não iria piorar. Não custava tentar.
Dentro da pequena igreja, os sussurros ecoavam, indefiníveis. À sua frente, acima do altar, uma bela cruz de madeira parecia erguer os braços para abraçar a todos os que lá estavam. Ao redor da cruz, vitrais coloridos, que retratavam passagens bíblicas, tornavam o lugar azulado e soturno, como se uma aura mística pairasse sobre os bancos de madeira, que aos poucos eram ocupados. Paulo ajoelhou-se na madeira dura e curvou o corpo. Apoiou a testa nos punhos e fechou os olhos.
Meu Senhor, livre-me de uma vida medíocre. Foi sua oração.

Delírios Proféticos - Capítulo 1

A Tortura Eterna


Uma luz muito intensa queimava seus olhos e ofuscava sua visão. O sol parecia arder próximo à sua córnea. Cego, ele tateou, buscando tapar a fonte luminosa. Subitamente, a luz se apagou, e ele se viu imerso num oceano interminável de escuridão. As pupilas doeram ao se dilatar bruscamente, procurando em vão a luz que se fora. Ele sentia um frio insuportável congelar seu corpo. Ficou amedrontado ao perceber que não era sua pele que o sentia, pois o frio vinha de seu interior. Suas entranhas se agitavam em alta velocidade, expelindo hormônios e adrenalina. Nesse momento ele percebeu que todo o seu corpo se movia na mesma direção, em alta velocidade, puxado por uma poderosa força gravitacional. Faltava-lhe algo sólido a que se sustentar, algo fundamental, a base das coisas, quando se está na realidade; não havia chão. Ele despencava de uma altura incomensurável, em direção ao solo, que devia estar nas profundezas daquela penumbra. Desesperado, tentou respirar, e ao sentir o ar lhe invadir os pulmões, percebeu que era frio, seco, desprovido de oxigênio, e não alimentava seu corpo. Tentou gritar, mas sua voz não saiu, e ele continuou despencando...
De repente estava sentado em um pequeno escritório.  Papéis impressos se amontoavam à sua frente. Ele tentou ler, mas sua mente não absorvia uma única palavra. Uma mulher se aproximou dele, e ao dobrar os lábios para falar, emitiu um estranho chiado robótico, agonizante, que parecia invadir seus ouvidos e rasgar seu cérebro. Atordoado, ele se levantou, e se afastou da mulher. Todos no recinto produziam aqueles sons bizarros, e se moviam de forma dura e mecânica. Eles não tinham íris ou pupila; os olhos brancos o fitavam ameaçadoramente. Afastou-se deles, e andou depressa até chegar no bebedouro. Tirou um copo de plástico, e acionou a torneira. Com um sobressalto, percebeu que não era água, e sim um líquido vermelho, que inundava o copo. Sentiu ânsia de vômito quando viu o sangue, quis fugir dali, correr para qualquer direção, mas percebeu que estava paralisado, e o esforço mental para controlar seus nervos somente lhe causava dores de cabeça. Assistiu o filete de sangue escorrer lentamente da torneira para o copo, e cada gota parecia demorar horas para finalmente cair. O sangue escorria também das paredes brancas. Os seres de voz robótica se aproximaram dele, e de suas bocas surgiam tentáculos viscosos e horripilantes. Eles acorrentaram-no e taparam sua visão. Ele foi arrastado bruscamente, e quando tiraram a venda, viu-se deitado em uma mesa de pedra fria, numa pequena sala  iluminada por velas. Um dos androides tinha nas mãos um ferro de marcar em brasa, e antes que ele pudesse gritar, sentiu seu peito pressionado pelo metal incandescente. A pele e os músculos queimaram, dissolvendo-se, e uma dor alucinante quase o enlouqueceu. Chacoalhou o corpo freneticamente, alucinado, mas uma pesada corrente prendia seus membros. Gritou em desespero, até a garganta doer, esperando que alguém o ouvisse e o socorresse. Parecia uma tortura insana o que estava sofrendo, entretanto, não via onde estava o torturador. Quem estaria controlando as máquinas? Perguntou-se o que teria feito para merecer aquela terrível punição. Teria morrido? Estaria Deus ou o diabo lhe condenando por seus pecados? E se aquilo era a morte, então o sofrimento se arrastaria por toda a eternidade?
Nessa hora, ele desejou que a morte fosse apenas o vazio etéreo da inexistência, como um sono profundo em que a consciência repousa, livre de todas as sensações, do medo da angústia, da dor...
Uma voz sussurrou palavras indefiníveis, como se soprasse instruções para sair daquela situação, encorajando-o a não se assustar. “Vazio”, “busca”, as palavras desconexas não faziam sentido, mas de alguma forma elas foram absorvidas por seu inconsciente. Ele desejou novamente o descanso eterno, e seu desejo foi atendido.
A tortura acabou, e ele mergulhou no mais profundo sono.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Apoteose em Lágrimas

 Seu corpo frágil elevou-se ao céu
Iluminado pela luz do luar
Numa apoteose deslumbrante e gloriosa
Iria embora, para não mais voltar

Olhar fixo em sua ascensão cintilante,
Divina, presa na própria revelação
Mistério noturno, alma flamejante
que se eleva em meio à escuridão

Envolta por um fulgor divino
Ilha de luz no mar obscuro
Banhada pelas graças do Destino
Glorificando seu espírito puro

Esplendorosa sapiência em si despertou
E a Verdade pode então contemplar
Sua mente clareada, a alma libertou
A si mesma conseguiu encontrar

Descobriu quem era, finalmente!
Mas não poderia na Terra morar
Seu rosto entristeceu novamente
Para o céu deveria flutuar...

Perscrutando-a pela última vez
Não pude deixar de relembrar           
das tardes em que passamos juntos
Observando a oscilação do mar

E antes de sua partida
Lançou-me um último olhar
Anjo divino, estrela renascida
Ao meu lado não poderia ficar.

Ela subia, suave e lentamente
Enquanto o fogo sagrado da emoção
Era apagado pela lágrima latente
Que gotejava em seu triste coração.